Durante uma turnê na Europa, tive a chance de visitar uma vila tradicional Viking localizada em Falsterbo, na Suécia. A vila estava literalmente habitada por descendentes vikings vindos de várias partes da Escandinávia.
As roupas, os famosos elmos com chifres, as armas de guerra, as ferramentas de trabalho no campo, os recipientes para a preparação dos alimentos, os objetos de uso pessoal e tantos outros impressionavam pela riqueza de detalhes e significados culturais.
É fato que os valores culturais de uma sociedade moldam o pensar e o agir consciente e inconsciente de cada indivíduo. Estamos todos imersos às referências da nossa própria cultura. Porém, de acordo com o conceito da alteridade, ou outridade, cada um de nós tem a clara percepção do ser individualizado que somos quando nos observamos atentos e sensíveis aos eventos à nossa volta.
Para um sul-americano contemporâneo criado em uma cultura geográfica e cronologicamente distante dos vikings, não dei nenhuma importância à utilidade dos objetos no cotidiano dessa sociedade, afinal, estes nunca fizeram parte do contexto cultural histórico ao qual estou imerso.
Porém, a sensibilidade no trabalho de um anônimo artesão viking, impresso nas ornamentações das espadas e nas remotas pinturas dos escudos surrados pelo tempo e pelo uso chamaram a minha atenção.
Tenho a impressão de que a sensibilidade individual é aculturada e atemporal, sendo capaz de despertar a curiosidade e a contemplação de um indivíduo em outro tempo e lugar.
Me arrisco a afirmar, inclusive, que a sensibilidade é a grande força motriz para o desenvolvimento da criatividade humana. Quem sabe seja ela a essência para o desenvolvimento da percepção atenta, da observação criativa.
Dizer que estamos sensíveis é afirmar que estamos em estado de alerta, conectados, receptivos aos estímulos externos e internos. Se percebidos e bem apurados, estes estímulos podem transformar-se em fruições criativas sem limites.
A sensibilidade, não desapegada da intencionalidade, nos leva a agir, produzir e criar fatos, produtos e ideias que, quando inseridos à nossa cultura, podem ser tratados como descartáveis ou necessários, de valor cultural artístico ou cliché, de apreciação circunstancial ou atemporal.
Parafraseando a artista plástica e escritora Fayga Ostrower, o criativo do homem se dá ao nível do sensível.
É provável que a primeira contestação à visão tridimensional do mundo tenha sido feita pelos artistas. Foram eles que sugeriram em suas obras a perspectiva multidimensional daquilo que chamamos de realidade, em que o Todo é observado a partir da fragmentação das partes.
A ciência aprofundou este conceito com a teoria da relatividade e a teoria quântica, porém, sabe-se que foi através das artes que a humanidade compreendeu melhor esta nova forma de observar o mundo.
Nas artes visuais, a percepção multidimensional surgiu com o movimento Impressionista no século XIX. Os seus autores, dentre eles Claude Monet, Edgar Degas, Auguste Renoir, romperam com os preceitos de contorno nítido e retrato fiel do mundo, característicos do movimento Realista, ao adotarem, dentre outras, a deturpação da imagem pela decomposição das cores.
Desde então, os movimentos posteriores ao impressionismo vem expandindo a percepção multidensional de várias maneiras, sendo a arte contemporânea o ápice criativo no desenvolvimento deste conceito.
Não é uma tarefa simples apreciar uma obra de arte contemporânea. A abstração e a conceitualização da realidade expressa pelo artista pode, muitas vezes, pertubar a fruição perceptiva do apreciador comum. Contudo, é através dessa representação distanciada da realidade como a conhecemos que provoca e questiona a visão tridimensional deste apreciador, tornando-o um apreciador atento, um observador criativo.
O apreciador atento contempla a arte contemporânea na tentativa de perceber ou, quem sabe, compreender a realidade paralela sugerida pelo artista. Porém, a impossibilidade de compartilhar da mesma percepção multidimensional do artista faz deste apreciador um co-criador da obra.
As sensações, indagações, questionamentos, conclusões e tantas outras impressões estimuladas a partir da perspectiva multidimensional resultam da capacidade criativa de reinterpretar os fatos, e, no caso da apreciação de uma obra de arte, da capacidade de recriar, numa fruição sensitiva e intelectual, o que foi proposto pelo artista.
Apreciar uma obra de arte é observar criativamente. Perceber a realidade multidimensional dos fatos é criar possibilidades. Criar é imaginar. Viver é criar!
Se nos permitíssemos parar por um instante em qualquer lugar para olhar o mundo à nossa volta, perceberíamos que a vida é interpretada e experienciada através de eventos corriqueiros que se assemelham e se contrapõem à nossa percepção.
Imaginemos uma cena onde um casal passeia com um cachorrinho. Supondo que o observador desta cena seja uma outra pessoa e não um outro cachorro, este deverá reconhecer a sua espécie Homo Sapiens ao se perceber semelhante ao casal. Mas isso só é possível porque existe, neste caso, a espécie Canis Lupus, ou o cachorro, que se contrapõe ao homem, tornando perceptível a existência de duas espécies diferentes.
Se não houvesse uma outra espécie no planeta mas apenas o H. Sapiens, a compreensão do significado da palavra ‘espécie’ não seria possível porque este conceito não existiria.
Uma vez percebida a similaridade, o observador, supondo que fosse uma mulher, se identificaria na figura feminina do casal através das semelhanças que, por sua vez, contrastariam com a figura masculina. Percebe-se então que a distinção entre os gêneros feminino e masculino só é possível devido às suas diferenças.
Um olhar ainda mais aguçado do observador iria destacar algumas dualidades entre ambas as figuras femininas como, por exemplo, alta e baixa, gorda e magra, branca e negra, entre outras. Estas seriam percebidas a partir das mesmas relações de semelhanças e diferenças entre observador e o objeto observado.
Por essa perspectiva, chegamos a conclusão de que todos nós interpretamos o mundo individualmente através dos diversos dualismos possíveis entre o EU que observa e o TODO ao nosso redor.
Reflexões, questionamentos, divergências e soluções são criadas quando os paradigmas, conceitos e os pensamentos mecânicos acerca do objeto observado, seja ele qual for, já não se enquadram com o que está sendo percebido, interpretado e experenciado pelo observador.
A sensibilidade à semelhança e à diferença é, desta forma, o gatilho que estimula a observação genuinamente criativa, que por sua vez, contribui para a percepção de novas ordens de relacionamento acerca de tudo.
Ao contrário do que se pensa, criatividade não é atribuição a um grupo seleto de artistas e outros poucos eleitos, mas uma virtude comum a todos desde que estejam atentos. Praticar a observação criativa através da percepção cuidadosa das diferenças e semelhanças é inovar, é evoluir.
Sabe-se, no entanto, que são os artistas, os cientistas e tantos outros observadores atentos que, ao perceberem diferentes relações existentes no universo e no ambiente ao seu redor, criam, participam e interagem no cenário que observam, e por isso são considerados criativos.
O tema central dos artigos que serão publicados neste blog é a criatividade, porém, cada colunista irá multifacetar o assunto a partir de diferentes enfoques, interpretações e experiências individuais. Esperamos, com isso, que o blog tenha vida longa, afinal, criatividade não se resume em palavras; é algo que se aplica, se experiencia e se testemunha cotidianamente.
Apesar de não ter a pretensão de sentenciar verdades ou mitos acerca do tema, admito que defendo com fervor o fato de que o privilégio da criação não se restringe somente aos artistas e a outros poucos escolhidos.
A capacidade de criar é inerente ao ser humano, e, portanto, trata-se de uma ação e realização nata e necessária para a sobrevivência do homem. A arte é mais uma área no exercício da criatividade cujas regras de conduta , assim como em outras áreas do conhecimento, seguem o percurso natural do seu próprio desenvolvimento.
A potencialidade criativa do homem se molda no contexto cultural em que vive. O ato de criar diz respeito ao ato de observar e interagir. O ser criativo enquanto um ser único, individual, dá forma à sua criação quando esta é contextualizada à cultura que o rodeia.
Essa ação se manifesta frequentemente para todos os indivíduos nas mais diversas atribuições e afazeres diários, muitas vezes considerados rotineiros e sem nenhum valor, como por exemplo o ato de combinar peças de roupa ou montar uma salada.
Cabe, então, o exercício da percepção e da observação criativa capaz de demonstrar que as atividades de criação de todo dia estão nas interpretações e escolhas que realizamos a cada instante, conscientes ou inconscientes.
David Liebman is considered a renaissance man in contemporary music with a career stretching over forty years. He has played with many of the masters including Miles Davis, Elvin Jones, Chick Corea, John McLaughlin, McCoy Tyner and others; authored books and instructional DVDs which are acknowledged as classics in the jazz field; recorded as a leader in styles ranging from classical to rock to free jazz; recipient of the NEA Masters of Jazz Award (2011); founded the International Association of Schools of Jazz (IASJ); a multiple Grammy nominee; inducted into the International Association of Jazz Educator’s Hall of Fame; the recipient of an Honorary Doctorate from the Sibelius Academy (Helsinki, Finland) and the Order of Arts and Letters from the French government.
His major educational treatise is called Chromatic Approach to Jazz Harmony and Melody released by Advance Music, Germany. According to Liebman, it a book for Advanced Players. In order to make it easier, it was published another Liebman’s book regarding the same content called How to Approach Jazz Chromatically by Jamey Aebersold Jazz, USA. David clearly explains and demonstrates the art of superimposing chords chromatically over “standard” chord changes (using several popular jazz favorites as his vehicles) to play contemporary sounding jazz lines.
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The material Liebman draws upon for contrasting chromatic colors include upper structure chords, tritone relationships, ii-V substitutes, “Giant Steps” movement , side slipping, moving chord cycles, purely intervallic thinking and other advanced concepts.
The following links are his II-V approach to the jazz standard called Autumn Leaves. Check it out!!
Autumn Leaves – solo transcription
Autumn Leaves Audio for Downloading
Michael Tilson Thomas does a fantastic job presenting the musical and social elements that went into this masterpiece of composition. The program is pithy enough for musicians, and accessible enough for music lovers. A very intelligent and entertaining piece of work; beautifully filmed and edited. An amazing documentary!
Part I
Part II
Part III
Part IV
Part V
Part VI
The Brazilian clarinet player and saxophonist Paulo Moura passed away on Monday night (12Jul10) in Rio de Janeiro.
Moura began his career with the Brazilian Symphonic Orchestra and he went on to work with famed bossa nova star Sergio Mendes in the 1960s. He broke boundaries throughout his lengthy career and became the first Brazilian instrumentalist to win the Latin Grammy for Best Brazilian Roots Album in 2000.
The following video was recorded by Eduardo Escorel two days before Paulo Moura’s death. Some musicians came to the hospital to say ‘goodbye’, and they jammed together. Moura played on his clarinet the chorinho called ‘Doce de Coco’. It was his last blow!!
Superb! Marvellous! It’s an eargasm! I am in awe of how the whole piece comes to a finish in such a marvellous fashion.
Há muito que venho estudando sobre processos composicionais na música erudita. Além de estudar a música pela música (análise, técnicas de composição, orquestração, harmonia, e outros), tenho também grande interesse em compreender de que forma os compositores trouxeram um novo respiro para um sistema musical que parecia reinar absoluto no período em que estes afortunados transgressores apareceram. Contudo, devo confessar que foi mais do que uma grata surpresa quando comecei a perceber algumas semelhanças existentes nas sonoridades e procedimentos composicionais entre a música de concerto e a chamada música popular.
É certo de que alguns compositores da chamada música popular, neste caso me refiro aos compositores de música brasileira e de jazz, foram influenciados pela chamada música de concerto, mas não é possível afirmar com exatidão de que maneira, a não ser pela especulação. Contudo, não há dúvida de que as influências ocorreram, e ainda ocorrem, basicamente através da manipulação da informação musical que o compositor se apropria e aplica na sua criação. Há também casos de plágio, quase que escancarados, como por exemplo o Prelúdio Op. 28, no. 4, de Frederic Chopin, e Insensatez, de Tom Jobim. Vale notar que Jobim nunca negou o plágio e disse que de fato não conseguiu se conter diante da beleza da obra.
Mas foi estudando sobre Claude Debussy e as suas trangressões sonoras através do uso de escalas simétricas e modais, harmonias quartais, o uso extensivo de notas pedais, processos estes que contribuíram para quebrar o sistema tonal que reinava (e ainda reina) absoluto desde Bach, que me deparei com uma peça na qual fiquei atônito pela sonoridade familiar muito explorada no jazz: Prelúdio no. 2, livro 1, ‘Voiles’ (ouça abaixo). O prelúdio está basicamente dividido em duas partes, da qual prefiro chamar de A e A’. No início do prelúdio, Debussy desenvolve um pequeno motivo melódico construído por uma escala de tons inteiros harmonizada pelos intervalos de 3a. e 4a., resolvendo na nota Sib pedal que irá acompanhar quase toda a peça. Esta parte me remeteu de imediato à introdução do tema So What, do importante disco Kind of Blue, de Miles Davis. São muitas as semelhanças, desde a introdução do baixo à sonoridade estática da progressão harmônica em função do reduzidissímo número de acordes de sonoridade quartal, típico dos acordes modais. O grande responsável na colaboração da sonoridade modal no disco de Miles Davis é o pianista Bill Evans, que certamente conhecia os prelúdios de Debussy, escritos para piano. O disco Kind of Blue é considerado como a obra representativa e introdutória do modalismo no jazz.
Voltando ao prelúdio, é possível observar que o motivo inicial é repetido e desenvolvido até o fim da parte A, onde Debussy suspende o pedal e apresenta como material melódico uma escala pentatônica menor em Mib como resposta e fechamento do desenvolvimento. Fiquei atônito ao identificar que o fechamento da parte A é exatamente igual ao fechamento do tema Alabama, de John Coltrane. Coltrane segue o mesmo procedimento composicional de Debussy ao compor a peça inteira sobre um pedal, desenvolvendo um motivo melódico, ainda que de forma improvisada, durante toda a extensão do tema até a resolução final. Contudo, não é possível saber se de fato Coltrane foi mesmo influenciado diretamente por Debussy, mas é fato que um dos seus músicos que também colaborou para a sonoridade modal das suas composições foi o pianista McCoy Tyner, que conhecia os prelúdios de Debussy.
Cada vez mais confirmo a minha opinião de que a música sempre esteve à espera das trangressões e experimentações através de procedimentos antropofágicos, sem a necessidade de reconhecimento de pátria ou bandeira. O conservadorismo justificado pela necessidade de se mater o purismo e a tradição está na cabeça dos homens, não pertence à natureza do desenvolvimento e evolução natural presentes também no próprio homem. Não se trata de um ato anárquico, mas um ímpeto natural de quem quer sair da zona de conforto que foi estipulada e dita como verdade. Graças a estes corajosos trangressores, que para todo o sempre existirão, eu vivo em paz quando o assunto é o futuro da música. A perpetuação da música dita séria não é uma necessidade, é uma consequencia.
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Meu Filho Querido!
Neste instante mágico me sinto invisível, de mãos dadas com você, alçando um alto vôo! Um vôo esperado, e por tanto tempo sonhado, como uma águia aprisionada que desperta da letargia, solta das amarras e se enche de alegria no vôo altivo, livre, sentindo o beijo do vento, brincando e rindo com o sol.
Sinto-me como de mãos dadas com as estrelas, sustentada pelas asas do coração, movida pelo sonho e paixão, sem medo, e assim como Ícaro… sonhar… voar…. concretizar……!
Sonhava ser artista, cantora, trabalhar no teatro, etc. Até toquei a minha violinha quando menina, mas o destino privou-me desta sabedoria. Alimentei um sonho de estudar num colégio interno, mas não tive condições. Sonhava estudar numa universidade, fazer o curso de direito, psicologia, teatro ou medicina, seria doutora, salvaria vidas, pessoas, traria alegria.
Este desejo me levou a Teófilo-Otoni, MG, queria me aproximar do orfanato “Tristão da Cunha”, um colégio de freiras que recebia meninas órfãs. Mas, lá não tinha vagas, nunca teria… E assim cresci, amadureci, vivi com dignidade, bati de porta em porta, algumas abriram, outras fecharam, não desisti. Caminhei cheia de sonhos, poucas realizações, acalentei meus sonhos, engavetei meus desejos, mas, não desisti.
Rezava muito, pedia proteção a Deus e a Nossa Senhora, com muita ingenuidade, porém, com fé. Queria ser alguém importante, ter uma profissão, um bom emprego, voar como águia, mais para isso faltava uma boa formação escolar, e.. eu não tinha. E o tempo passou, precisava também cuidar da minha vida, ter segurança, minha família, minha casa, um bom marido, filhos, saúde e boa vivencia. Adormeci o meu sonho, mas não desisti.
Agora, com você e os seus irmãos, concretizo meus sonhos de infância e juventude. Aqueles sonhos que ainda ficaram para trás, eu os vejo surpreendentemente sendo realizados, passo a passo. É um orgulho, uma satisfação, é prazeroso. De todos os meus anseios, posso lhe confessar que recebi uma dádiva de Deus: fui agraciada com um bom marido, bons, lindos e bem sucedidos filhos e tudo mais que tenho.
Sim, não tive à tão sonhada profissão, mas tive outros agraciamentos primorosos. Hoje as portas se abrem talvez tardias, porém em tempo.
Sou uma mãe que orgulha das realizações dos filhos, que concretizaram em suas profissões sem a minha influencia, afirmo, mas foram todos dentro do que eu almejei para mim no passado, incrível! Por isso, não tenho palavras que expressem essa doce coincidência, mas meu coração vibra de satisfação, e vejo que o meu lado artístico perpetuou em você.
Parabéns, Parabéns, Parabéns, meu orgulho, meu filho!
Sua mãe é muito orgulhosa de você.
Sua mãe!
Um processo criativo que se materializa e se apresenta como objeto de apreciação e catárse para alguém que o observa é o que se conhece por obra de arte. O conjunto da obra de um determinado artista é o que se chama de legado. Apesar da quase hunânime concordância acerca das afirmações acima, confesso que tenho as minhas suspeitas de que legado não é o conjunto da obra, mas o ser criativo que materializa o processo de criação em obra. Para mim, o legado do Cravo bem temperado chama-se Johann Sebastian Bach, da Monalisa chama-se Leonardo Da Vinci, e o da La Sagrada Família chama-se Antoni Gaudi.
Não tenho palavras para descrever as minhas impressões sobre La Sagrada Família, a inacabada obra do arquiteto espanhol Antoni Gaudi. O artista tinha consciência de que a ‘Catedral dos Pobres’, como ele gostava de dizer, colocaria Barcelona, a Cataluña e toda a Espanha no hall das mais importantes must see obras da humanidade. De fato, as quatro torres da igreja são um prenúncio de que estamos diante de uma maravilhosa criação humana, fruto da capacidade criativa de uma mente inquieta, capaz de reinterpretar os textos sagrados do cristianismo, a natureza e o homem no seu cotidiano através da transgressão dos limites da arquitetura e das artes visuais.
Gaudi trabalhou por 43 anos na construção desta igreja, vindo a falecer aos 74 anos, atropelado por um bonde, em 1926. Os seus estudos e anotações foram e são até hoje as referências para os escultores que o sucederam. A obra ainda permanence inacabada e não há previsão para o seu término, talvez dure ainda outras tantas gerações. Seja como for, a humanidade goza do privilégio de poder acompanhar um processo criativo ainda em andamento, apesar da ausência do seu criador. A atemporalidade na criação desta obra é o que ratifica a minha opinião de que La Sagrada Família é o masterpiece do legado que se chama Antoni Gaudi.
La Sagrada Família – Antoni Gaudi
Os homens percebem a vida assim: uma linha reta que sai de não sei onde para não sei quando….. Não! A vida não é uma linha reta, mas cíclica. O tempo é cíclico, as estações são ciclos, o ciclo do dia e da noite, o nascer e o morrer, enfim, tudo se move assim, em ciclos, por isso está escrito: “Para tudo há uma estação”. Nós homens (digo os machos), não somos capazes de perceber a vida assim, o nosso ciclo é largo, dura uma vida inteira para completá-lo, por isso vemos tudo como uma linha reta que sai de não sei onde para não sei quando. E elas? Elas (digo as fêmeas) conhecem o ciclo da vida, do tempo, experenciam o ciclo do próprio corpo, elas são o próprio ciclo.
Obviamente não estou me referindo a um ser superior ou inferior, mas ao aspecto “ser mulher”, que não é mais perfeito ou melhor do que o “ser homem”. Os homens incorporam outros aspectos da divindade que as mulheres vêem com igual inveja, e ambos os aspectos são simplesmente e maravilhosamente isso: aspectos.
Contudo, devo assumir que ser homem é ser a minha própria provação, pois enquanto eu não sofrer o suficiente com a minha tolice, não infligir suficiente sofrimento com as bobagens que crio, não magoar os outros o suficiente para mudar os meus comportamentos, não substituir a agressão por razão, a compaixão por desprezo, o ‘ninguem-perder’ por ‘ganhar-sempre’, não poderei conhecer a vida em ciclo, não compreenderei jamais o ser mulher.
Mas Deus foi generoso e nos permitiu apreciar, desejar e amar esse outro ser, nos permitiu copular e compartilhar com a vida, a ser desejado e amado por ela(s). Por isso, sejam quantas vidas ou ciclos eu tiver, seja qual for a evolução que eu conquistar, peço a Deus que me faça sempre homem, para que eu possa viver a contemplar uma mulher.
* * *
No translation.
Mulher com leque – Pablo Picasso
Um artista que se observa como um universo em si mesmo é capaz de expressar as suas percepções do TODO através da forma de arte que domina. É desta forma que a atriz Clarice Niskier, observando o seu próprio processo de despertar espiritual, adaptou para o teatro um monólogo baseado no livro A Alma Imoral, do rabino Nilton Bonder. As reflexões durante a peça alcançam a todos na medida de cada um, no limite de abertura de cada espectador para as argumentações e reflexões sobre tradição e traição, transgressão e dogma, ilusão e percepção da ilusão. O espectador é convidado a se observar como um universo em si mesmo, assim como a atriz se observou durante o seu processo de despertar. O ciclo então se fecha, a mensagem alcança o receptor, e este então se abre para uma percepção individual, resignificando a mensagem. Fechar este ciclo é o nirvana para o artista comprometido com a arte, é como comungar à mesa dos grandes criadores e intérpretes, e a atriz Clarice Niskier está entre eles.
* * *
The Brazilian actress Clarice Niskier has adapted the book The Immoral Soul by Nilton Bonder for the stage, aiming for the mobilization for the contemporary viewer’s thoughts and emotions. The play desconstructs and reconstructs the history of civilization’s millenary concepts, such as body and soul, write and wrong, the betrayer and betrayed, and obidience and disobidience. It is based on the history of the old Testament, on parables of Jewish wisdom besides historic and scientific information.
(Line note by Nilton Bonder)
Clarice Niskier
Foi com um pigarro na garganta que me apresentei à pessoa do outro lado do telefone:
- Alow..
- Boa tarde! eu gostaria de falar com o Tide… ele está?
- É o Tide…
- ( … ) Tide, aqui quem fala é o Marcelo Coelho, saxofonista e compositor. Ééé……………………. eu gostaria de dizer que acabei de gravar um cd que se chama ‘Colagens’, baseado na sua obra…..!!
- AAhhhhh….
Neste dia, tive o privilégio de tomar um café no seu habitat. Percebi que a minha admiração pela sua obra era pífia se comparada à experiência daquele encontro. O homem estava por toda parte: sala, corredor, cozinha, quarto, prateleira, parede, mesa, teto, lixeira, armário… O meu coração batia forte me chamando a atenção para o fato de que eu estava diante de um homem verdadeiramente livre, criador do seu próprio mundo e das suas próprias experiências. Senti alegria, paz!.. fiquei agradecido por estar ali!.. e percebi que nos conhecíamos há muito tempo!..
O Tide me disse, sem falar, que o homem é um Grande Criador, capaz de criar a própria realidade e de experenciá-la plenamente… isso bastou!! Compreendi que este homem sabia usufruir do seu livre-arbítrio. Naquela tarde, observei, apreciei e contemplei uma grande obra conhecida simplesmente por Tide.
Estou certo de que O Grande Criador do universo deve ter regozijado ao observar a sua criatura brincado de viver a vida que escolheu, brincando de ser livre no mundo dos homens, escolhendo a cor do seu cada dia, colando peça por peça do cotidiano, e deixando para todo o sempre um grande mosaico, que gosto de chamar de ‘O Legado Tide Hellmeister“.
Você foi ali, mas continua cá…
* * *
No translation!
Houveram algumas situações em vida das quais eu recordo com todos os meus sentidos. Assim como um print, estes momentos demarcam território nas lembranças. O corpo não os esquecem. Um destes momentos foi a primeira vez que ouvi a canção Eu e a Brisa, de Johnny Alf. Obrigado, Johnny!
* * *
There are some situations in live that we will never forget, it doens’t matter if it was a good or not so good experience. In fact, those moments are printed in our bodies, our mind and our heart. Regarding to the music, I have been experiencing really good moments, and one of them was the first time that I heard the song Eu e a Brisa, by Johnny Alf. Thanks, Johnny!
Johnny Alf
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Eu e a Brisa – Johnny Alf e Seu Sexteto Contraponto – 1968
São poucos os que conseguem perceber o contexto em que vive, o AQUI-AGORA de cada um! Talvez porque estamos muito ocupados em pensar, ou perdemos o hábito de viver o amanhã HOJE. As crianças sabem disso, elas vivem o amanhã hoje, elas brincam de bombeiro, salvam o mundo e reconstróem tudo de novo… e se não ficou bom, começam tudo outra vez, afinal, o amanhã, pra elas, ainda não chegou. Nós adultos vivenciamos muitas vezes esses momentos mas não percebemos…
José Eduardo Gramani sabia, conscientemente, que chegaria no amanhã de um jeito ou de outro. Parece óbvio, mas a sabedoria dele estava nas escolhas, na decisão de como gostaria de estar no amanha, e vivenciava essa experiëncia no hoje, no aqui-agora. Tão simples e tão sábio, brincadeira de criança!!
O livros de rítmica, tão complexos, foram construídos da forma mais simples possível. Os exercícios das séries por exemplo são de uma ingenuidade quase infantil na sua construção “uma colcheia pra cá, uma semi pra lá, uma colcheia pra cá, duas semi pra lá,…” Poderíamos pensar como se fosse “uma laranja pra cá, uma maçã pra lá, uma laranja pra cá, duas maçãs pra cá,…” Brincadeira de criança!!! Os nomes dos exercícios então mostra claramente que ele se divertia com os seus estudos rítmicos: Fifrilim, Tirolira, Pirilämpsias, Tambaleio, Divertimentos, e por ai vai… A sabedoria infantil do Gramani fizeram dos seus exercícios rítmicos um referencial de estudo, hoje e amanhã.
E foi assim…. ele brincava de ser gente grande, de um dia ser um grande educador, músico e pesquisador, de salvar o planeta música da sistematização simples e fazer desse planeta um grande parque, onde a brincadeira de fazer música faria as pessoas rirem, chorarem, pensarem e terem vontade de viver só brincando… e de tanto acreditar que só estava brincando de salvar o planeta, ele deixou uma obra prima para a humanindade, de tanto acreditar que seria gente grande um dia, seu nome se tornou um verbo!
Estamos nós aqui agora, no amanhã dele, vivenciando o seu legado!!
Viva Gramani!!!
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No translation.
Se percebessemos do que somos capazes…!!! Mas parece que fazemos questão de não perceber, ou talvez não somos mesmos capazes. Seja como for, percebo apenas que vivo dentro do “measure” quadrado que crei pra mim, o mundo e a vida se apresentam na dimensão da minha percepção, nem mais, nem menos. Então… aumentar a minha percepção do Todo é o caminho:
Tide Hellmeister (1942-2008) foi muito conhecido como artista gráfico onde ganhou prêmios em bienais de livros e ilustrou por muitos anos a célebre coluna Diário da Corte, do jornalista Paulo Francis. Contudo, creio que foram os seus trabalhos de pintura e colagem que o levaram ao celeiro dos grandes artistas do nosso tempo.
A exposição “Brava Gente” revela a história dos personagens criados por Tide a partir da observação do cotidiano de passageiros do metrô, do ônibus e dos passantes nas ruas. Sua coleção de personagens nasceu quando ele morava na Praça da árvore, em São Paulo, no percurso que fazia para ir trabalhar na região central da cidade. Depois, no estúdio, imaginava a vida de cada um e recortava, colava e pintava seus rostos: tristes, bondosos, malandros, egoístas, avaros, generosos, abatidos ou conformados. Leia a seguir:
Domingos Beltrão (boca suja)
* 27.12.1941 São Paulo (SP)
† 12.03.2000 São Paulo (SP)Paulistano da Barra Funda, sua infância foi atribulada. Genioso, temperamento hostil, era o irmão mais velho de outros três. Desde cedo, sempre briguento e valente, gostava de fazer os irmão de capachos.
Aos 18 anos, quando serviu o exército, armou várias encrencas. Certa vez, numa briga, deixou paraplégico um cabo da sua unidade. Ali ganhou o apelido de “Mingão Boca Suja”. Passou por vários empregos, sempre arrumando confusão. Gostava de se vestir bem. Vivia aplicando pequenos golpes e era tido como um sujeito muito esperto.
Aos 24 anos começou a trabalhar como escrivão numa delegacia de polícia, mas se dizia delegado (nos cartões de visita estava escrito Dr. Domingos Beltrão). Diziam que era um grande achacador, pois até chegou a ter vários carros importados.
Morreu assassinado numa mesa de bilhar em um bar da Zona Leste, com três tiros, por pessoas tidas como traficantes. Não era casado, deixou duas amantes.
Obra exposta
Caixa Cultural
Endereço:Praça Da Sé, 111
Quando:(Dom, Ter, Qua, Qui, Sex e Sáb) e feriados das 09h00 às 21h00. Grátis.
Acontece até o dia: 28/03.
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Tide Hellmeister (1942-2008) became one of the most important contemporary artists in Brazil. His work with tipography, paints and collages were acclaimed by the critics and public for almost 50 years. The “Brava Gente” Exposition that is happening in Sao Paulo presents one of the most remarkable mixing between paints and collages made by Tide. It is about ordinary people that were observed by Tide on the streets in Sao Paulo for more than 20 years. Based on his own impressions about them, Tide created a huge amount of characters. He gave a name and last name for each one of them, and wrote a brief story about their lifes. Some stories are happy and funny, others are tragic and sad.
Tenho lido sobre as novas tendências musicais e há uma grande afirmação de que a música eletrônica veio pra ficar. Grande parte da nova geração se não gosta, pelo menos conhece um pouco sobre a ‘technera’ sonora que se executam por ai. Os estilos são vários: House, Techno, Techno Hardcore, Breackbeat, Drum’N’Bass, Trance, Goa Trance, Tribal, Hip Hop, e outros que ainda estão por vir. Apesar da contemporaneidade, este processo de desenvolvimento musical surgiu ainda muito antes da gravação de ‘Giant Steps’ do saxofonista John Coltrane, período em que o free-jazz era embrionário e a geração rippie ainda usava calças curtas.
No ano de 1954, o alemão Karlheinz Stockhausen compôs os ESTUDOS I e II, peças com sons sintetizados mais sofisticados, baseados em freqüências puras de som. Stockhausen provocou uma verdadeira ruptura no conceito de produção de som na época e influenciou toda a produção sonora musical desde então. Em 64, surgiu o primeiro sintetizador, batizado de MOOG, numa auto-homenagem do seu criador Robert Moog, e que foi muito explorado por bandas de rock como o Emerson, Lake and Palmer, Pink Floyd e Led Zeppelin; ainda nesta época surge o Krafterwerk, grupo alemão de pop eletrônico, formado pela dupla Ralph Hütter e Florian Schneider. Nos anos 80 surgem os primeiros DJs, e de lá pra cá é história. Por isso não é exagero afirmar que estes ESTUDOS de Stockhausen são o embrião do que hoje chamamos de música eletrônica.
O vídeo apresenta a composição HYMNEN, composto em 1966/67, que integra uma grande variedade de hinos nacionais, transformados eletrônicamente numa mesa de apenas 4 canais, e considerada a 5ª. Maior composição eletrônica de Sotckhausen. O som tão impactante e atual que poderíamos imaginar como sendo aplicado na trilha de algum filme de vanguarda, com recursos gráficos e efeitos especiais também de ponta, ou até mesmo ser usado para qualquer manifestação artística de vanguarda. Trata-se de uma obra de arte atemporal.
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I’ve been reading about the new musical tendencies and there is a general statement that the electronic music will be around for a long time. There are several styles in eletronic music: House, Techno, Techno Hardcore, Breackbeat, Drum’N'Bass, Trance, Tribal, Hip Hop, and others. In spite of its contemporaneity, this musical genre started its development with the german composer Karlheinz Stockhausen. By the time, the free-jazz style was still an embryo and the rippie generation wore short pants.
The following video is a extract of the composition called HYMNEN, composed in 1966/67. The German title means (national) anthems, and the substance of the work consists of recordings of national anthems from around the world.